Dia do silêncio...
07 de May, 2026
Precisava de respirar fundo, de fazer uma introspeção dos últimos meses da minha vida, onde mergulhei numa agitação que ainda não tinha currículo para essas experiências.
Dia do silêncio, porque não o aproveitar em toda a sua essência e conversar com ele, como se fossemos duas almas gémeas?
Sem medo do nevoeiro, muito menos das alturas, saí cedo de casa, ainda estava escuro, peguei em duas cadeiras vermelhas, a cor foi ao acaso e simplesmente as levei comigo, arrastando-as pela montanha acima.
Agora aqui estou sentado, invisível, lado a lado com o silêncio, onde tentarei ter uma conversa não de homem para homem, mas de espírito para espírito.
Não sei se tenho legitimidade para algo, ou para nada, mas nesta beleza fugidia da paisagem, com a imagem esbatida não consigo ver a Gronelândia a derreter.
Mastigo a língua, sinto a aspereza das mágoas trituradas, mas também as lágrimas da felicidade por ser feliz.
Quem sabe nesta conversa de surdos, consiga espalhar fantasias, desvendar segredos de desejos ocultos e escrever com a mente silenciosa?
Entro num diálogo de vozes silentes, são de uma delicadeza afável, até escuto verdades que doem, mas que são mesmo verdades.
Nas falinhas mais mansas, percebo que o silêncio está a exercitar comigo um jogo de sedução, como se me incentivasse a começar tudo de novo, fazendo-me esquecer as histórias envelhecidas.
Diz-me que o rio corre para o mar, que tem sentimentos profundos e mesmo não os escutando, em cada seu afluente surgem filhos incógnitos.
Respondo: Mas tu não sabes nada de mim!
A resposta do silêncio, não se fez esperar e de forma extremamente firme: Sei! Está tudo nas tuas cartas de amor rasgadas, nas mímicas das tuas ilusões e com as tuas memórias de amor, deixaste muitos rastos escritos nos sinais do tempo.
Nesta longa audição da sabedoria do silêncio, senti-me a Amazónia despida e depois de tudo o que ele me disse ao ouvido, abracei o tempo para continuar a amar.
Respeita os direitos de autor.
Respeita os direitos de autor.

