Entre as sombras...
08 de May, 2026
Acredito que não seja apenas eu que sente um mundo a desabar velozmente, para algo incerto, mas cujos pressentimentos são de algo trágico para os humanos.
Brotam das trevas novos atores com peso na esfera política, com pensamentos ou ideologias que fogem da normalidade e que desde o pós-guerra de Segunda Guerra Mundial não se sentia.
A linguagem, a postura, a falta de diplomacia, os ódios, o desconhecimento da história por onde os nossos antepassados passaram e sofreram, de nada valem para esta corrente tresloucada que se julgam donos da razão imperialista à base da força.
Entramos numa espiral de violência global, que na realidade nos deve inquietar.
Entrando em devaneios sombrios…
“A criatura espreitava por cima da borda de uma tábua velha do soalho, como quem observa o nosso próprio abismo. Os seus olhos, grandes demais para o rosto, pareciam conter memórias dolorosas que ninguém pediu para guardar, mas que fazem parte de histórias sofridas do passado. Durante anos, viveu escondida sob o assoalho de uma casa esquecida dos tempos do holocausto nazi, ouvindo passos, risos, discussões de ódios e com odores da morte. Ecos de vidas trágicas que seguiam sem jamais perceberem a sua presença na escuridão. Certa noite, porém, algo mudou, o silêncio tomou conta da casa, nenhuma voz, nenhum ruído, apenas o vazio. Só ao fim de praticamente oitenta décadas, pela primeira vez, a criatura sentiu algo próximo da coragem. Subiu lentamente, os dedos finos e trémulos agarrando a madeira podre. Ao erguer o olhar, não encontrou pessoas, nem luz, nem propósito de vida, apenas poeira e abandono. Foi então que compreendeu: não era o mundo que a rejeitava, era ela que havia se escondido dele e dessa forma sobreviveu aos horrores da guerra. O medo de que a mantinha segura também a tinha mantido invisível dos humanos. Ali, entre a escuridão e o desconhecido, teve uma escolha rara, continuar a observar a vida à distância ou, finalmente, participar dela, mesmo com o risco de dor. Os seus olhos piscaram, hesitantes com medo da luminosidade. E, pela primeira vez, a criatura não estava apenas olhando, implorava por sentido, como se os sentimentos carregassem o peso de todas as vezes em que escolheu não viver, mas também não morrer. Durante tanto tempo, ela acreditou que o perigo estava lá fora, nos outros, nas perdas, nas deceções inevitáveis e nas mortes evitáveis. Escondeu-se, dia após dia, camada após camada, até que o abrigo virou prisão. E agora, ao erguer-se lentamente, percebe algo mais cruel que o medo, percebe o tempo. Tudo o que não foi vivido, tudo o que não foi dito, tudo o que não foi sentido, mas que pode voltar a repetir-se se a humanidade continuar neste rumo para o abismo. E isso a apavora mais do que qualquer sombra, porque viver exige exposição, exige aceitar que não há garantias, que tentar é também falhar e que amar pode ser também perder. Ainda assim, há uma centelha, muito pequena, quase invisível ao olho nu e que o faz insistir. Com coragem, os seus dedos apertam a borda da tábua velha, ergue-se e vê que o mundo afinal não mudou, mas definhou e continua vazio de sentimentos. Ergue-se mais um pouco, desconfiado e percebe que não está pronta para o que aí vem, a imolação humana”.
Talvez seja isso que nos define, não a ausência de medo, mas a escolha de avançar apesar dele, até nos momentos que pressentimos que poderão ser vividos entre as sombras.
Vale a pena refletir…
Respeita os direitos de autor.
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