Ecos do invisível…
06 de October, 2026
Acordei sozinho, mas deixaste o perfume em mim, o que me deixa com o corpo ainda aquecido pelo teu calor.
Vou ficar quieto no meu canto, em casa, aconchegante, para conversas afiadas às paredes à espera que elas respondam e sem demora para não comer os sabugos. A chuva bate forte nos vidros, que nem piedade tem com os caracóis afogados e parece que tenho os pés molhados.
Suspenso na virtualidade de uma balança da razão, vou reescrever histórias, algumas das encruzilhadas da vida ou simplesmente do meu poder de fantasiar.
Olho para o cinzeiro vazio, está limpo, não fumo, nem por brincadeira, embora tenha fumado dos dez aos catorze anos, coisas de miúdos da rua.
Num transe letárgico, como se existisse uma borralha de priscas de cigarros, do nada surge uma chama branda com acalmia dos espíritos e duas almas fumegantes numa dança do fumo.
É a porta do horizonte imaginário aberta, entre o passado e o presente, a galope nas tonteiras estonteantes do amor tardio.
Sem meter achas na pequena flama, os sinais de fumo formam duas silhuetas a trocarem palavras de amor e círculos em forma de coração.
Será a minha consciência adormecida?
Na minha sabedoria saloia, por vezes tenho capacidades escondidas, que me fazem duvidar se é sonho, realidade ou ilusão, ou simplesmente glórias famintas do ego, por beijos salivados.
A verdade é que as labaredas provocam sombras no rosto, são dois num só, uma arte criada às mãos do artista e fico ali a escutar a ilusão das suas palavras.
Sentado no sofá, anestesiado pelas perceções criadas pela fumaça vestida de gala, pela transparência da paixão, com toques subtis nos lábios e olhares com química profunda. Parecem riscos feitos a lápis de carvão, numa viagem sem direções, acompanhados pelos meus soluços de gago e viciado no amor.
Fecho os olhos, deixo o sentido da audição em alerta, pode ser que seja mais sensível e consiga decifrar estas impressões dos ecos do invisível.
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