Pedaços de mim...
02 de June, 2026
Às vezes pareço perdido, saturado do nada, sinto-me atado a viajar numa corrida louca de lesmas, que até já rezo para chegar o verão. Tenho andado longe da ribalta, prefiro estar aqui sentado na areia molhada da praia, até posso enferrujar dos ossos, mas o coração baterá sempre com força, porque nunca é tarde para amar.
O sol está escondido entre as nuvens, mesmo assim, quem me vê ao longe consegue vislumbrar a transparência da minha alma, porque o meu corpo é um “puzzle” de emoções. Tem buracos de bala, talvez por algumas vezes ter nadado no lago dos tubarões. Até morcego já fui à noite, onde envolvido no silêncio, oferecia flores às virgens donzelas e às casadas insaciáveis.
Não vou escrever o relatório da minha autopsia psicológica, embora já não consiga viver sem ti, foi contigo que saí do escuro e aprendi amar.
Já não sou menino, nem sequer um louco adolescente, mas velhos são os trapos, embora já tenha dores nos joelhos e rugas nas memórias.
Não vejo gaivotas no mar, gosto de trocar com elas poesias, por vezes faço-lhes confissões dos tempos atmosféricos da boémia, do fogo do dragão carregado de palavras com pimenta na língua. Mas, será que elas entendem? Devem julgar que estou maluquinho da mona, ou simplesmente esteja a contar-lhes anedotas de escárnio.
Felizmente, abafei a timidez quando tirei as asas da gaveta e comecei a voar com tiques de sedutor e safadezas de poeta. Muitas das inspirações foram na cama, umas vezes a amar perdidamente, outras com sexo de verdade para condecorar glórias. Fazia fogueiras de loucuras, com as unhas cravadas na pele, com os dedos molhados na boca, com os sabores salgados da felicidade das vaginas húmidas. Soltava suores frios, dedilhava as vibrações dos clitóris saltitantes e em cada momento derrubava mais um tabu.
Não posso escrever todos os retalhos da minha vida, porque quem lê pode ficar corado, ou com a boca aberta de espanto e quiçá a recriar fantasias próprias do Criador de desejos.
Sem as luzes acesas do palco, vou ficar apenas a vaguear à sorte, guiado pelas vozes silenciosas da alma, até porque ao escrever com a língua solta, posso deixar faíscas no ar e por hoje já abracei o tempo, contando pequenos pedaços de mim.
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