Sopros do coração...
28 de October, 2026
Vivia num colete de forças, preso ao peso dos sentimentos amargos e de desculpas esfarrapadas para não ser feliz.
Talvez o estado fosse o de um leproso ferido de amor, com a alma a gritar desesperos bem alto, com pedras nos sapatos e as rodas dentadas da felicidade enferrujadas.
Bem tentava escutar o lado da consciência, disfarçar olhares sedutores ao espelho, mas continuava com os sonhos adormecidos, à espera de alguém que os soubesse despertar.
Dizem que o espelho tem sempre dois lados…
É verdade. Do outro lado estava o perfume da essência da tua alma. Inalei-o devagar, como quem descobre um perfume que sempre procurou, e comecei a despertar do sonho adormecido. Sem perceber como, transformaste a minha vida num sonho dos sonhos.
Na ânsia de ficar a teu lado, passei a linha que separava o reflexo do espelho e entrei num mundo mágico, onde cada instante contigo parecia ter sido escrito só para nós.
Neste mundo imaginário da virtualidade, encarnamos em dois corações com asas. Sopramos palavras calorosas, partilhamos carinhos, aproximamos as nossas almas e guardamos desejos escondidos no labirinto dos sentimentos.
E, sem darmos por isso, fomos ficando cada vez mais perto.
A simbiose agregou os semblantes apaixonados, e o feitiço do encanto transformou-te em metade de mim. Precisávamos de fugir das hienas e, com os corações de mãos dadas, começamos a dançar ao som de “maracatu” até ao infinito, como se o mundo lá fora deixasse de existir.
A cumplicidade abriu as portas da confiança. Já nos conhecemos. Sabes que tenho malícias escondidas debaixo da língua, talvez sejam tentativas de sedução, mas, no fundo, são apenas melodias da paixão que não consigo calar quando estou contigo.
Escolhemos o céu como estrada do amor e, cá de cima, vemos tudo o que se passa lá em baixo: o sol a espelhar-se no mar, as rosas a florescerem, as nossas sombras nas paredes e até os cisnes felizes, com sorrisos no olhar.
Parece que tudo gira em redor de nós, como se fossemos poeiras num túnel de vento, levados suavemente para onde o coração quiser.
Juntos, cantarolamos fados alegres, atiramos ao ar palavras aos molhos, impregnadas de poesia. Somos calores carinhosos, aconchegantes, como uma bola de fogo indomável, onde cada abraço imaginado aquece um pouco mais a alma.
Parecemos dois lobos solitários, mas, na realidade, somos dois anjinhos que vivem para amar, descobrindo, um no outro, o lugar onde o coração finalmente pode descansar.
E talvez seja isso que somos: dois corações que se encontraram por acaso, mas que agora respiram o mesmo ar, sonham os mesmos sonhos e vivem embalados pelos sopros do coração.
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